quinta-feira, 2 de junho de 2016

Bocage

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage nasceu em Setúbal a 15 de Setembro de 1765 e faleceu em Lisboa a 21 de Dezembro de 1805. Foi um poeta português e uma figura inserida num período de transição do estilo clássico para o estilo romântico que teve uma forte presença na literatura portuguesa do século XIX.
Bocage num dos seus poemas faz uma descrição de si próprio, ou seja um autorretrato:

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento

A Peregrinação

Fernão Mendes Pinto nasceu em Montemor-o-Velho, cerca de 1510. Foi um explorador e aventureiro português.
Começou a escrever a Peregrinação em 1569 e terminou em 1578 mas só foi publicada em 1614. 
A obra é de um género híbrido. Fernão Mendes Pinto faz o seu relato sobre a viagem/aventura no oriente. Muitos dizem que o que Fernão Mendes Pinto escreveu era mentira mas este só escreveu o que os seus olhos viam. Mais recentemente veio-se a confirmar que tudo o que este escreveu afinal é verdade. 
Comparada com Os Lusíadas, a Peregrinação apresenta um estilo anti-épico. O herói é o mesmo( povo português), mas comparada com a obra de Camões, a obra de Fernão Mendes Pinto apresenta que uma décima de elogio e nove de critica. A obra de Camões apresenta apenas uma décima de critica( nas reflexões do poeta e no Velho do Restelo) e nove de elogio ao povo português( pois é uma epopeia o que significa que serve para glorificar os feitos de um herói). 
Peregrinação tem sido lida, não só como um livro de história, mas também como um romance. Podemos dizer que a obra tem sido tudo e ao mesmo tempo nada.
A obra é escrita na primeira pessoa, podemos observar isso nas marcas de primeira pessoa. Está dividida em 6 partes com um total de 226 capítulos. 
Peregrinação também pode ser considerada como uma caminhada espiritual que Fernão Mendes Pinto descreve.

Fernão Lopes


Fernão Mendes Pinto nasceu em Montemor-o-Velho, cerca de 1510, no seio de uma família que beneficiava de ligações a nobres na corte de D. Manuel e D. João III. Essa circunstância pode explicar a vinda do escritor para Lisboa, em Dezembro de 1521, onde entrou ao serviço de D. Jorge de Lencastre, Mestre de Santiago. Inconformado com a estreiteza dos proveitos que conseguia angariar e com os olhos postos na fortuna, resolveu embarcar, em 11 de Março de 1537, para a Índia, onde chegou em Setembro do mesmo ano.

A Esparsa (Exemplo e Análise)

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m´espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado


Na reflexão de Camões (neste poema) a ordem social instituída é injusta, por isso diz que o Mundo está desconcertado. O que seria justo era os bons serem recompensados e os maus serem castigados. No entanto, não é isso que acontece. Os bons sofrem e vivem num mundo de “graves tormentos” e os maus acabam por conseguir tudo o que querem vivendo assim num “mar de contentamentos”.
O poeta tenta alcançar o “bem tão mal ordenado”, que é o mal, para se inserir na ordem social desconcertada e assim receber o bem e encontrar-se também num “mar de contentamentos”. Esta foi uma tentativa falhada, pois ao ser mau o poeta foi logo castigado. Porquê?
Apesar de ter feito o que fazem os maus, ele não acreditava no que estava a fazer. E quem não acredita no que faz não pode ser bem sucedido. As pessoas genuinamente boas não conseguem ser más, pois vai contra os seus valores éticos e morais. O poeta concluiu então que só para ele é que “anda o mundo concertado”.

A Cantiga (Exemplo e Análise)

A cantiga constitui uma composição medieval galego-portuguesa de tema religioso ou profano, destinada a ser cantada. Formalmente, corresponde a uma composição poética composta por um mote de quatro ou cinco versos e por uma ou várias glosas de oito, nove ou dez versos, que repetem no final, pelo menos, do último verso do mote.


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos

Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Neste poema, o sujeito poético pretende comparar os olhos da sua amada com a Natureza, mas os olhos referem-se à amada no seu todo.
O poeta cita a beleza do campo e menciona que as ovelhas mantêm-se deste, enquanto ele se mantém das lembranças do seu coração. Sente saudade, tristeza e nostalgia.
Por último, o sujeito poético refere que o gado pasta com alegria nos campos, no entanto explica que o que eles estão a comer são as graças do seu coração, ou seja, corresponde à beleza dos olhos da sua amada.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Discurso Pessoal e Marcas de Subjetividade em Camões

“Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.

De amor não vi se não breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!"          (Luís de Camões)

   O trabalho primeiro de um poeta é observar. Sendo assim, pode-se dizê-lo espectador da vida, dos homens e suas questões e da sociedade. A observação desses elementos, no entanto, é comum a quase toda a gente e o que irá defini-lo como poeta será o trabalho intelectual com as palavras resultante dessas observações (que à maioria não geram muito além de pensamentos evanescentes).
   Escrever poesia é, também, comunicar-se com a realidade pelo pequeno e frágil fio das palavras. E é exatamente por esse fio que se estabelecerá o jogo da subjetividade e o fingimento poético.
   Assim, para analisarmos o poema de Camões (e qualquer outro poema), precisamos nos afastar da tentação de associá-lo à vida empírica do autor.
Entendamos, então, sob essa perspectiva, a 1ª estrofe:

   “Erros meus, má fortuna, amor ardente
    Em minha perdição se conjuraram;
    Os erros e a fortuna sobejaram,
    Que para mim bastava amor somente.”
O eu-poético se apresenta perdido por causa dos “erros”, da “má fortuna” e do “amor ardente”, no entanto, é importante ressaltar que se o poeta estivesse perdido, jamais escreveria versos tão bem trabalhados.
   Fica evidente, assim, o jogo que se estabelece entre a subjetividade do autor e a poesia, que é um produto estético da percepção do poeta e não exatamente de sua própria vivência.
   O tom melancólico que se segue é simulacro artístico que culmina em um efeito de desilusão e pesar em relação à vida amorosa. “De amor não vi se não breves enganos.”
   O que não quer dizer, como já dito exaustivamente, que a vida de Camões tenha sido perpassada por esses desenganos. O poeta como observador é o ser capaz de entender determinados sentimentos sem tê-los sentido de fato, mas há que se ponderar também que o autor de poesia não estará completamente desvinculado do que escreve.



A razão capital para tal fato é que o poeta jamais conseguirá eliminar totalmente as marcas de sua subjetividade da poesia que escreve. Afinal, o que marca o processo de escrita são os caminhos estéticos que o autor escolhe percorrer e, como toda escolha passa necessariamente pela subjetividade, o poeta nunca deixa de se colocar também em sua poesia, ainda que esta possa parecer impessoal e distanciada de sua pessoa à primeira vista.
No caso específico de Camões, percebemos que o que marca sua poesia são as experiências de sua formação e o acúmulo de conhecimentos filosóficos e religiosos que adquiriu, são exatamente esses elementos que dão as diretrizes para o caminho estético que Camões irá percorrer.
   Supomos, assim, que a vinculação do poeta com a sua obra pode se dar em dois níveis: um necessário e primordial, que é marcado pelas escolhas que este faz, em termos estéticos, que estão intimamente relacionadas às suas preferências, à sua percepção e à sua subjetividade e dará a “aura” de sua poesia e outro dispensável para qualquer análise de poesia, ou literatura em geral, que associa sua obra à sua vida pessoal ou amorosa.


Álvaro de Campos em Acaso, disse:
“Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.”

Ele considera, assim, que o poeta possui a “alma virada do avesso” e que é isso que o possibilita de escrever versos. Após as reflexões acima desenvolvidas, concluímos que quando ele diz ser o poeta possuidor dessa “alma virada do avesso”, ele a relaciona à agudeza de sua percepção e não a uma possível tristeza que deva ser considerada em uma análise mais compromissada.
   Dessa forma, percebemos que mais importante que identificar traços da vida pessoal do poeta em sua obra, é perceber qual viés estético-perceptivo perpassa os caminhos de sua escrita e marca sua subjetividade

O Tema do Desconcerto

O Tema do Desconcerto